“Um sistema complexo que funciona é invariavelmente evoluído a partir de um sistema simples que funcionou. Um sistema complexo projetado a partir do zero nunca funcionará e não poderá ser consertado para funcionar. Você tem que começar de novo com um sistema simples que funciona” – John Gall. Em 1975 o médico e entusiasta da teoria dos sistemas escreveu a icônica lei de Gall e décadas depois ela continua atualizada. O Gerenciamento de Projetos tem muito a ganhar com a simplicidade e a melhor forma de unir a simplicidade com o Gerenciamento de Projetos é através do Project Model Canvas.

INTRODUÇÃO

Gerentes de projetos realizam controle e planejamento de muitas atividades diferentes, é fácil perder a visão completa do projeto dentro deste ambiente complexo e diverso conhecido como gerenciamento de projetos. Uma ferramenta que se faz muito útil para evitar que problemas desta natureza aconteçam é o Project Model Canvas (P.M.C.). Neste estudo, vamos apresentar o que é esta ferramenta, como ela funciona, quando sua aplicação é mais eficaz e ao final será montado um exemplo hipotético de sua aplicação em um pequeno projeto para a geração de energia eólica.

SOBRE O PROJECT MODEL CANVAS

O P.M.C. é uma estratégia de planejamento de projetos que conta com uma interface visual, simples e completa. A principal vantagem em utiliza-la é a disposição mais intuitiva de informação que aumenta a capacidade de associação e consequentemente permite que se tenha uma visão mais ampla das atividades do projeto e suas conexões. Esta ferramenta nos permite representar estruturas complexas de forma mais simples e a simplicidade traz muitos benefícios. A proposta principal desta ferramenta é quebrar o paradigma tradicional, modernizando a visão fragmentada e pouco integrada do gerenciamento de projetos.

No artigo Aplicação do Project Model Canvas no Planejamento de Projetos Monográficos na Graduação, de Álvaro Bezerra Araújo, o autor destaca que o P.M.C. é montado em torno de um modelo de neurocognição para que ocorram associações mentais e para que o ambiente seja propício à geração de modelos mentais. Esta formulação do P.M.C. permite a construção de cenários futuros e desconhecidos com maior facilidade, o que causa impacto direto nos resultados do projeto.

A palavra Canvas pode ser traduzida do Inglês para palavras como lona ou tela. O nome deste modelo de planejamento é bem intuitivo, pois o modelo consiste, de maneira rudimentar, em uma grande tela onde se colocam todas as informações do projeto de forma coesa. Para o professor e consultor de gerenciamento de projetos José Finocchio Jr., criador do P.M.C., “é mais fácil pensar e planejar visualmente”.

No artigo “A Simplicidade no Gerenciamento de Projetos”, disponível no site onde o professor Finocchio ensina sobre o P.M.C., pmcanvas.com.br, podemos encontrar uma sequência de perguntas que precisam ser respondidas ao criar um projeto: Porque? O que? Quem? Como? Quando e quanto?

Para montar um Project Model Canvas é necessário responder a estas perguntas de forma realística e objetiva, além disto, algumas informações essenciais não podem faltar na resposta, abaixo listamos as perguntas e os principais grupos de informação que não podem ser omitidos nas respostas, de acordo com o artigo A diferença entre o Plano de Projeto e o Project Model Canvas, do Project Builder.

  1. Por quê? Quais os benefícios que o projeto irá trazer e os seus objetivos SMART (específicos, mensuráveis, atingíveis, realistas e temporais);
  2. O quê? Como será o produto final do projeto? Qual valor que ele terá para o cliente, para a sociedade e para a companhia?;
  3. Quem? Quais são os principais Stakeholders do projeto? Quais seus interesses?;
  4. Como? Qual o nível de praticidade do projeto? Quais os meios que serão utilizados para que ele se torne uma realidade? Esta é uma das perguntas mais importantes que se faz ao montar o PMC;
  5. Quando e quanto? Estas perguntas são feitas em conjunto e se complementam. Na resposta é importante incluir os riscos do projeto, planos de contingencia, mitigação e outras formas de se evitar ou solucionar potenciais problemas. Certamente não podem ser deixados de lado o custo do projeto, com o nível de detalhamento e alocação mais adequado. Uma linha do tempo gera o efeito visual e a facilidade de associação de informações na resposta a estes questionamentos. O cálculo do valor presente líquido (VPL) também pode ser usado para responder a esta pergunta de forma quantitativa. Mais informações sobre como calcular o VPL de um projeto estão disponíveis em UVAGPCLASS, nos posts dos caros colegas Ana Sousa Post: Veja como o Valor Presente Líquido (VPL) ajuda na análise de viabilidade de um projeto e Gláucia Veríssimo Post: Análise da Viabilidade – VPL – Valor Presente Líquido.

No mesmo artigo do pmcanvas.com.br, as repostas para esta sequencia de perguntas são expostas como necessárias para que o plano de projeto seja simples e funcione. Também é recomendado que estas perguntas sejam respondidas de maneira cooperativa, trabalhando em conjunto com os stakeholders do projeto.

O artigo “Gestão Visual em Projetos: Analisando os modelos de canvas à luz do Guia PMOK®” de Bruno Campelo e Rafael Rodrigues, expõe que além das respostas a estas perguntas se faz necessário também preencher dois campos, nomeados “GP”, especificando o gerente de projetos e “pitch”, que seria uma sucinta apresentação do projeto. Os autores também destacam uma exigência de Finocchio para que sua ferramenta seja aplicada, o uso do modelo deve ser realizado por uma equipe em que pelo menos um integrante possua conhecimentos básicos sobre gestão de projetos, para que haja o uso das boas práticas de gerenciamento de projetos. No mesmo artigo é retratada a necessidade de garantir a consistência entre os blocos, ao preencher as áreas no painel deve-se atentar ao nível de integração entre elas, áreas integradas tem capacidade de resolver inconsistências, indefinições ou contradições.

O painel do P.M.C. segue um modelo para organizar as respostas das perguntas, a figura abaixo demonstra o modelo de separação utilizada por José Finocchio em seu livro, Project Model Canvas: gerenciamento de projetos sem burocracia.

Figura 1 – Painel de José Finocchio

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 Fonte: https://singep.org.br/6singep/resultado/131.pdf

EXEMPLO DE APLICAÇÃO

Com o embasamento teórico exposto, vamos agora montar uma aplicação hipotética deste modelo em um projeto de microgeração de energia eólica para uma empresa  comercial de pequeno porte.

A seguir encontram-se as perguntas para as quais o Project Model Canvas precisa de respostas em um formato específico. Junto a cada pergunta está uma possível resposta, no formato adequado para a montagem do P.M.C., é válido destacar que o painel pode ser montado de diferentes formas e consequentemente, as perguntas podem ser respondidas em diferentes formatos também.

– Por que? Os aumentos no valor da eletricidade e na carga tributária que incide sobre a conta de energia somados ao aumento de eficiência e redução de preço dos aerogeradores, a vantagem financeira que este tipo de investimento traz para as empresas está cada vez maior. É válido destacar também que a geração de energia eólica é limpa e não emite poluentes na atmosfera, reduzindo os impactos ambientais da companhia. A nova regulação da ANEEL permite a introdução do excesso de energia gerada na rede, gerando créditos para a conta de luz da empresa, desta forma, não há desperdício por excesso de geração nas horas em que a empresa consome pouca energia. Outra vantagem da microgeração eólica é a valorização do imóvel.

-O que? A instalação de uma turbina eólica de pequeno porte em uma companhia comercial para participar do Sistema de Compensação de Energia e reduzir a conta de eletricidade da empresa em aproximadamente 50%. Para tal é necessária, certamente, a Instalação da turbina, um programa de manutenção periódico e a disponibilidade financeira para arcar com os altos custos iniciais do projeto.

-Quem? Os principais envolvidos são a equipe da empresa encarregada de acompanhar o projeto, os administradores da companhia e o fornecedor da turbina e da instalação. É válido destaca também alguns envolvidos externos como a distribuidora de energia elétrica, o governo e as entidades ambientais.

-Como? Onde instalar? Os aerogeradores de tamanho pequeno são construídos a uma distancia pequena do solo, isto leva fatores como construções próximas, árvores ou pequenas elevações no terreno a causarem uma influencia significativa na energia mecânica dos ventos. É sempre recomendado procurar um terreno plano, como por exemplo um bosque com poucas árvores ou uma lagoa. Os telhados de casas ou edifícios também costumam ter ventos mais velozes devido a altura.

Qual eixo utilizar? Para escolher o eixo da turbina do projeto é necessário analisar o local onde será feita a instalação. De acordo com o Guia de Microgeradores eólicos do Instituto Ideal, os aerogeradores de eixo vertical tem as vantagens de produzirem menos ruídos e captarem os ventos com diferentes ângulos de incidência de forma mais eficiente (com muitas edificações e outros fatores de interferência na trajetória dos ventos em terreno urbano, é importante captar energia de diferentes ângulos). Este tipo de aerogerador geralmente não suporta ventos com altas velocidades e também tem uma eficiência menor do que os aerogeradores de eixo horizontal para ventos constantes e fortes, mas é recomendado para terrenos urbanos com ventos irregulares e de menor velocidade.

O Guia de Microgeradores eólicos também aborda os Aerogeradores de eixo horizontal, são os mais populares no mercado, geralmente tem uma eficiência maior, principalmente em locais onde não há muitas edificações. Também é comum estes aerogeradores terem uma durabilidade maior e custos de manutenção mais baixos, se o terreno onde o projeto será realizado possui poucos fatores de interferência na trajetória dos ventos (por exemplo uma casa na beira de um lago) este é o eixo que deve ser escolhido.

Analisando a 2ª edição do caderno temático da ANEEL: Micro e Minigeração Distribuída, Sistema de Compensação de Energia Elétrica  encontramos informações importantes na hora de dimensionar o sistema. Como participante do Sistema de Compensação Energética, devemos observar as regras para evitar pagar tarifas desnecessárias e para evitar que parte da energia produzida não seja compensada. De acordo com o caderno, para participantes do grupo B é necessário pagar o custo de disponibilidade nos meses em que o consumo for igual ou menor a geração. Para participantes do grupo A, o custo fixo da demanda contratada será sempre cobrado. Em ambas as situações deve-se projetar o sistema (e a contratação de demanda no caso do grupo A) de forma que não haja geração de 100% da sua energia, algum mínimo consumo da rede é bom garantir a eficiência financeira do projeto.

– Quanto?  O mesmo caderno temático da ANEEL destacado na resposta da pergunta anterior contem informações para esta resposta. O caderno nos mostra que Como um participante do Sistema de Compensação de Energia você paga somente o valor da diferença entre a energia consumida e a energia gerada, além das taxas do grupo B e A de consumo, que não são afetadas pela geração de energia.

É importante realizar uma pesquisa de mercado e procurar múltiplos orçamentos antes de contratar a instalação e comprar uma pequena turbina eólica, para garantir que esta pagando um preço compatível com o mercado.

De volta ao mesmo caderno da ANEEL, existe a questão tributária, o caderno nos mostra que o ICMS incide sobre toda a energia consumida, tanto da rede quanto da energia gerada, exceto nos estados onde existe legislação que isenta a tributação da quantidade de energia gerada. Neste caso o ICMS incide apenas sobre a energia consumida da rede, não compensada. O PIS e a COFINS não incidem sobre a energia gerada, apenas sobre a energia consumida da rede, não compensada.

A agencia nacional também destaca que os créditos gerados podem ser utilizados em até 60 meses após a data de faturamento.

– Quando? Considerando a hipótese levantada de uma empresa comercial de pequeno porte a fim de instalar uma turbina eólica que possa atender cerca de  50% da sua demanda por energia elétrica, pode ser criado um limite máximo, também hipotético de 7 meses para a conclusão de todo o projeto. Para organizar melhor os prazos, podemos dividir o projeto em 3 fases principais: O planejamento e contratação, a instalação e a legalização.

A fase de planejamento inclui muitas pesquisas e um intenso relacionamento com fornecedores, teria um limite interno de 60 dias para a conclusão. Após toda a etapa de planejamento, a instalação da turbina deve ocorrer em até 30 dias. A etapa final de legalização e de registros junto as entidades públicas e distribuidoras de energia, por ser uma tarefa burocratizada, contaria com um prazo de 45 dias.

MONTAGEM DO PAINEL

Após respondermos a todas estas perguntas podemos colocar as respostas no painel de forma simplificada e propícia para a visualização do projeto como um todo. Como já foi levantado anteriormente, este layout evita falhas de coesão e permite a análise mais rápida do conteúdo.

A imagem a seguir nos mostra o quadro do Project Model Canvas, com um layout adaptado mas utilizando a mesma divisão do Painel de José Finocchio (exposto na Figura 01), preenchido com os parâmetros do exemplo acima.

Figura 2 – Painel preenchido com os parâmetros do exemplo

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Fonte: do Autor (2018)

CONCLUSÃO

Integração, simplicidade, praticidade, coesão, agilidade e percepção do todo, são os privilégios que o Project Model Canvas trás para o gerenciamento de projetos. Uma forma de apresentação amigável para os interessados pode ser o diferencial entre um projeto bem sucedido e um projeto que registra muitas falhas e imprevistos. No exemplo acima, temos um modelo de painel com informação importante que pode ser apresentada para os interessados de forma dinâmica, garantindo muito mais eficiência na transferência de informação e consequentemente maior compreensão do projeto pelos grupos, aumentando as probabilidades de cada pessoa trabalhar melhor e gerar mais resultados.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ANEEL – Cadernos Temáticos ANEEL Micro e Minigeração Distribuída Sistema de Compensação de Energia Elétrica 2ª edição Disponível em: <http://www.aneel.gov.br/documents/656877/14913578/Caderno+tematico+Micro+e+Minigeração+Distribuida+-+2+edicao/716e8bb2-83b8-48e9-b4c8-a66d7f655161>. Acessado dia 16 de maio de 2018.

ARAÚJO Álvaro – Aplicação do Project Model Canvas no planejamento de Projetos Monográficos na Graduação. Disponível em: http://monografias.ufrn.br:8080/jspui/bitstream/123456789/2735/1/%C3%81lvaroBA_Monografia.pdf. Acessado dia 25 de maio de 2018.

INSTITUTO IDEAL – Guia de Microgeradores eólicos. Disponível em: http://institutoideal.org/guiaeolica/ . Acessado dia 15 de maio de 2018.

MEDEIROS, Bruno. SILVA, Rafael – Gestão Visual em Projetos: Analisando os modelos de canvas à luz do Guia PMBOK®. Disponível em: < https://singep.org.br/6singep/resultado/131.pdf >. Acessado dia 24 de maio de 2018.

PMCANVAS PROJECT MANAGEMENT – A Simplicidade no Gerenciamento de Projetos. Disponível em: <http://pmcanvas.com.br/2016/02/10/simplicidade-no-gerenciamento-de-projetos/>. Acessado dia 24 de maio de 2018.

PROJECT BUILDER – A diferença entre o Plano de Projeto e o Project Model Canvas. Disponível em: //www.projectbuilder.com.br/blog/a-diferenca-entre-o-plano-de-projeto-e-o-project-model-canvas/ . Acessado dia 10 de maio de 2018.

PROJECT BUILDER – Diferenciais Reais do Project Model Canvas. Disponível em:<https://www.projectbuilder.com.br/blog/diferenciais-reais-do-project-model-canvas/>. Acessado dia 24 de maio de 2018.

SOUSA Ana : Veja como o Valor Presente Líquido (VPL) ajuda na análise de viabilidade de um projeto – Disponível em: https://uvagpclass.wordpress.com/2018/05/25/veja-como-o-valor-presente-liquido-vpl-ajuda-na-analise-de-viabilidade-de-um-projeto/; Acessado dia 25 de maio de 2018.

VERÍSSIMO Gláucia : Análise de Viabilidade – VPL – Valor Presente Líquido. In: https://wordpress.com/read/feeds/60291340  04 de Dezembro de 2017 – Disponível em: Análise da Viabilidade – VPL – Valor Presente Líquido; Acessado dia 25 de maio de 2018.

 

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