Você conhece a  metodologia FEL (Front-End Loading) e sua importância para a gestão de grandes projetos? Quer descobrir?

O gerenciamento de projeto passou a ser considerado uma ciência a partir da década de 60 e, com o reconhecimento da sua importância para as iniciativas organizacionais, surgiu a necessidade de entender a aplicação dos conhecimentos, habilidades e métodos usados na prática da gestão de projetos.

Para Prado (2004), os grandes empreendimentos são o foco de estudo desde os primórdios do gerenciamento de projetos, tendo em vista o objetivo de reunir e recomendar os melhores métodos para cumprimento das metas e sucesso empresarial. Visto isso e analisando os resultados obtidos, tornou-se necessário a busca por modelos que promovessem a transformação cultural, focada na preservação, gestão de riscos e a sustentabilidade, ou seja, o crescimento sustentável das empresas passou a ser um ponto de extrema importância.

O aumento dos projetos de grande porte no cenário mundial, revelou a necessidade da etapa de concepção dos empreendimentos (pre-planing), com isso, as estratégias de execução passaram a ser definidas, as estimativas de custos levantadas e teve início a análise da engenharia.

Segundo Rabechini (2001), o sucesso de um projeto é aquele que atende aos critérios de tempo, custo, eficácia e satisfação do cliente. Dessa forma, é de suma importância a definição de forma antecipada dos objetivos, do fluxo de informações e do planejamento de todas etapas seguintes para garantir que os objetivos traçados inicialmente sejam alcançados.

O instituto norte-americano Independent Project Analysis (IPA) fundado em 1987, enxergou a necessidade de uma metodologia voltada para essa fase de concepção do projeto, na qual fosse possível buscar um equilíbrio entre os resultados sociais, econômicos e ambientais, logo, nasceu uma metodologia denominada Front-End Loading (FEL) que, tem como objetivo a priorização dos custos, prazos, segurança e operação.

As pesquisas relacionadas na fase de “pré-planejamento” não são limitadas a apenas um instituto. Vale ressaltar que o Construction Industry Institute (CII) realiza diversas pesquisas acerca deste tema. Eles denominaram este processo como Front-End Planning (FEP) e, ainda de acordo com o CII (1995), a literatura conhece esta fase como Front-End Engineering (FEED), Scope Definition, Feasibility Analysis, Conceptual Planning ou Pre-Project Planning (PPP).

A figura abaixo mostra onde estão os projetos que utilizam a metodologia FEL pelo mundo.

WhatsApp Image 2017-11-25 at 23.42.42 (1)
FIGURA 1: PROJETOS QUE UTILIZAM A METODOLOGIA FEL PELO MUNDO / FONTE: LOCALIZAÇÃO DOS PROJETOS – ACESSO EM 20/11/2017.

De acordo com o artigo “Metodologia FEL: Sua importância na avaliação de riscos e redução de impactos em escopo, tempo e custo de projetos complexos de engenharia”, Moura (2008) publicou o benchmarking realizado pelo PMI Brasil em 2007 que, entre 185 empresas brasileiras de diversos segmentos, cerca 78% delas encontram dificuldades com os prazos dos projetos, 64% relatam problemas com os custos, 44% com a qualidade e 39% problemas de satisfação do cliente. Ainda de acordo com a pesquisa, 66% das empresas entrevistadas alegaram ter problemas com o não cumprimento dos prazos, 64% com falhas de comunicação e 62% com mudanças no escopo (PMI Chapters Brasileiros, 2007).

Ao analisar a pesquisa realizada acima, é possível identificar a importância da metodologia FEL que, ao ser bem aplicada, possibilitará as organizações que os projetos sejam executados em um menor prazo, menor custo, maior segurança e sustentabilidade.

WhatsApp Image 2017-11-25 at 23.42.41 (1)
FIGURA 2: RELAÇÃO DOS CUSTOS DE MUDANÇA DURANTE O PROJETO / FONTE: VALIDAÇÃO DOS PORTÕES DE ENTRADA. – ACESSO EM 21/11/2017.

De certa forma, como é possível verificar na figura 2, a aplicação dessa metodologia é motivada para garantir que o projeto não siga em frente sem a garantia de que os objetivos serão atingidos, devido aos altos custos para efetuar mudanças durante a execução.

O funcionamento da metodologia FEL:

O FEL divide-se em três etapas: FEL I, FEL II e FEL III. Para cada FEL existem atividades que entregam um produto específico, que servem de suporte contínuo na tomada de decisão para o prosseguimento do projeto para o próximo FEL. Os gates são as interfaces entre os FEL’s, ou seja, portões ou requisitos que devem ser superados para o avanço do projeto de maneira monitorada e bem gerenciada, antes de se iniciar as próximas atividades do projeto.

A definição do empreendimento é determinada pelas fases do FEL que são responsáveis por todo o planejamento, definindo o que será feito, quando, por quem e quais os recursos necessários.

Na execução tudo o que foi pré-determinado na fase de concepção será colocado em prática, incluindo-se a realização das aquisições necessárias e o planejamento para a próxima fase, chamada de operação.

Na figura abaixo é exemplificado, de forma ilustrativa, as etapas que são trabalhadas na metodologia FEL.

WhatsApp Image 2017-11-27 at 21.04.53
FIGURA 3 – AS ETAPAS DO FEL – FONTE: http://www.techoje.com.br/bolttools_techoje/files/arquivos/apresentacao_fel_shirlei_ietec_mar2013.pdf – ACESSO EM 21/11/2017.

FEL I: Planejamento do Negócio

Nessa fase é definido o negócio, onde todo alinhamento estratégico e a análise de mercado é aprovada. O escopo começa a ser definido junto ao objetivo do projeto, bem como a estimativa do montante de investimento e a análise de viabilidade do negócio é realizada, levando em consideração os seguintes indicadores de viabilidade: o cálculo TIR (Taxa Interna de Retorno), VPL (Valor Presente Líquido), VPI (Valor Presente do Investimento) e Payback Descontado. Cerca de 75% dos projetos não obtém sucesso e acabam não passando a fase seguinte, o FEL II, ou seja, são abortados ou voltam para ser reavaliados.

O objetivo dessa fase é validar a oportunidade comercial e decidir quais alternativas serão analisadas na próxima fase.

FEL II: Seleção da Alternativa 

O foco desta etapa é o desenvolvimento da engenharia conceitual de todas as opções levantadas no FEL I e, a partir daí, as opções são comparadas e definidas através da avaliação econômico-financeira de cada opção. Dessa forma, esta etapa é conhecida como a fase da seleção da opção, na qual é decidida conceitualmente o escopo do projeto.

São feitas análises das soluções tecnológicas e construtivas associadas ao empreendimento, terminando com a seleção da melhor solução. O retorno financeiro é um parâmetro decisivo para o prosseguimento do projeto, pois, caso não seja apresentado um retorno acima da taxa mínima de atratividade o projeto é cancelado. Existe ainda a estimativa do dispêndio de capital (CAPEX) necessário para a implantação do projeto. Vale ressaltar que dos projetos remanescentes do FEL I, cerca de 50% deles seguem para a última e crucial etapa de validação – FEL III.

O objetivo desta etapa é identificar e direcionar o projeto a uma opção, além de atualizar os dados econômicos e tem início a definição do projeto,

FEL III – Planejamento da Construção 

O foco agora é a construção, ou seja, o FEL III dá início a preparação do projeto para a aprovação corporativa e a sua futura implantação. Nesta etapa, desenvolve-se o projeto básico onde o detalhamento busca estreitar a margem de erro entre o planejado e o realizado. Ainda no projeto básico temos maior detalhamento do físico-financeiro, layout das instalações, dimensões definitivas dos equipamentos e diagramas de fluxos. A taxa de aprovação nessa fase é de 90% dos projetos que entram.

O objetivo deste FEL é desenvolver a engenharia detalhada, assim como o plano de execução e a estimativa de custos detalhadas da alternativa selecionada anteriormente.

Ao fim da terceira etapa, temos uma taxa de 12% de projetos que obtém sucesso desde sua entrada no processo de seleção e avaliação caracterizado pela metodologia FEL.

Aplicação da metodologia FEL em um projeto de mineração: 

Na gestão de um projeto de pesquisa mineral os portões do FEL vão além dos três citados acima, neste caso, são considerados cinco portões que são entendidos como análises que visam verificar se a ocorrência mineral que está se trabalhando pode ser promovida ao passar por cada etapa. O sucesso das etapas do FEL (figura 4), permitirá um melhor conhecimento geológico e econômico dentro das condições do momento possibilitando obter um minério com as características já definidas.

WhatsApp Image 2017-11-27 at 21.20.57
FIGURA 3: AS ETAPAS DO FEL NA MINERAÇÃO / FONTE: http://geoconomica.com.br/livros/gestao-projetos-mineracao – Acesso em 27/11/2017.

Neste caso, a pesquisa é dividida em cinco etapas que são conhecidas como:

  1. FEL I – Reconhecimento
  2. FEL 2 – Pesquisa Mineral
  3. FEL 3 – Avaliação
  4. FEL 4 – Recursos / Reservas
  5. FEL 5 – Plano de Aproveitamento Econômico.

FEL I – Reconhecimento

Os primeiros estudos são realizados e definem as substâncias que serão exploradas. As informações básicas são levantadas pela alta cúpula da empresa e em seguida são realizadas pesquisas bibliográficas, estas servem para verificar os melhores métodos de mineralização e quais são os mais adequados dentro do arcabouço geológico que o território dispõe.

Após a escolha dos modelos de uma forma ampla, são realizados os primeiros reconhecimentos de campo, que buscam definir quais são as áreas no terreno que apresentam as características do modelo definido.

Por fim, é montada uma planilha com as características do alvo, tais como localização, tipo de anomalia e são documentadas por mapas geoquímicos, geofísicos e geológicos. O manual de procedimentos é um documento evolutivo que no decorrer da evolução do projeto serão acrescidas novas normas.

FEL II – Pesquisa Mineral

Todos os pontos que foram definidos no FEL I serão trabalhados no FEL II, ou seja, nessa etapa os alvos priorizados terão uma programação de trabalho específica de forma a permitir a localização do mineralização do tipo pesquisado.

Caso algum dos alvos selecionados apresentem resultados negativos, estes serão suspensos, e, ou, abandonados após serem devidamente documentados e colocados em espera.

FEL III – Avaliação

Os resultados do FEL II e os priorizados, são o objetivo de trabalho do FEL III. Agora os trabalhos demandam um maior detalhamento e visam definir se a fonte  da anomalia é responsável por gerar o alvo que contém mineralização extensa e suficiente para conter um depósito com perspectiva econômica. Novamente, analisando toda a informação existente é feita uma programação de trabalho para cada alvo.

Logo, os trabalhos são definidos e os primeiros furos exploratórios são planejados visando maiores definições acerca da mineralização e sua extensão.

FEL IV – Recursos e Reservas

Uma nova análise profunda é feita, desta vez em cima dos resultados obtidos na etapa anterior, são selecionados e priorizados e é elaborado uma nova programação de trabalho individual. Agora o objetivo é definir as reservas.

Nesta etapa as malhas de sondagem são programadas e orientadas por estudos geoestatísticos preliminares. E os resultados são corpos de minério cubados com características definidas que permitam a elaboração de um projeto mineiro.

FEL V – Plano de Aproveitamento Econômico

Nesta etapa os itens necessários são bem conhecidos, porém, o que se busca é a confiabilidade.

Em suma, vale destacar que as atividades que foram conduzidas pelos portões FEL (I, II, III, IV e V) são similares aos projetos de empreendimentos industriais. No decorrer do avanço pelos cinco portões desse FEL, tem-se um detalhamento maior da operação da extração mineral, usina e logística, contendo informações necessária para a previsão dos investimentos.

De forma geral, a metodologia FEL é destacada por abordar os métodos ideais para o gerenciamento de projetos de grandes empreendimentos, tais como, o exemplo citado acima, pois permite que seja elaborado um pré-planejamento, onde todas necessidades sejam abordadas, prevendo os custos e tempo necessários para conclusão do projeto com sucesso. Tem como ponto crucial garantir que não ocorram mudanças durante a fase de execução, fato que causaria diversos desvios e atrasos em relação ao que foi planejado.

 

Referências Bibliográficas

BARBOSA, POLIANA T.; PINHEIRO, NATALIA P. M.; SANTOS JUNIOR, WILSON L.. Metodologia FEL: Sua Importância na Avaliação de Riscos e Redução de Impactos em Escopo, Tempo e Custo de Projetos Complexos de Engenharia. Salvador – BA, 2013.

MOURA, Aamanda Isis de. SANTIAGO, Leonardo Pereira e Silva. DRUMOND, Daniel
Campos; NOGUEIRA, Luiz Carlos Junior. Potencializando o planejamento de projetos:
abordagem de uma metodologia de planejamento no contexto do padrão PMBOK,
XXVIII Encontro Nacional de Engenharia de Produção.

PRADO, DARCI. Gerenciamento de Programas e Projetos nas Organizações.

RABECHINI JR, Roque. (2001) A importância das habilidades do gerente de projetos.
Revista Administração de Empresas, São Paulo, v.36, n.1, p.92-100, jan/mar, 2001.

http://www.techoje.com.br/bolttools_techoje/files/arquivos/apresentacao_fel_shirlei_ietec_mar2013.pdf – Acesso em 20/11/2017.

http://geoconomica.com.br/livros/gestao-projetos-mineracao – Acesso em 27/11/2017.

IMAGENS

http://www.ipaglobal.com/Methodology/Project-Locations – Acesso em 20/11/2017.

http://www.projectbuilder.com.br/blog-pb/entry/conhecimentos/metodologia-fel-sistema-de-validacao-por-portoes-de-entrada – Acesso em 21/11/2017.

Anúncios