Quais são as vantagens para um produtor musical/fonográfico independente que consegue visualizar e compartimentar seu trabalho com o mindset geralmente associado a administradores e/ou engenheiros de produção?

Até o final da década de 70, especialmente no Brasil, era praticamente impossível a criação de uma gravadora de pequeno porte, também conhecida como selo fonográfico, que não estivesse associado a uma outra de grande porte, as chamadas majors, isso devido principalmente ao alto custo dos equipamentos ligados a gravação, desde a compra, manutenção e especialização para o manuseio além das dificuldades de distribuição e divulgação de músicas. Porém, o avanço tecnológico possibilitou a portabilidade de gravadores analógicos e o surgimento da gravação digital. Logo, o crescimento da produção independente era natural e catapultado pela demanda não atendida pelas majors de novos gêneros.

 

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Figura 1 – Gravador Analógico de Fita Tascam 85 – 16B 16 canais / Fonte: Ebay

 

 

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Figura 2 –Gravador Digital Tascam DP-32SD 32 canais / Fonte: Sweetwater Sound

 

O produtor independente difere do produtor de grandes gravadoras pois em sua maioria acumula diferentes funções e responsabilidades, como as de produtor musical, fonográfico ou até mesmo executivo. Essa denominação confere ao produtor o controle do seu próprio modelo de negócio e com isso, cada etapa de seu trabalho deve ser realizada de forma planejada afim de se otimizar tempo e recursos, o que nos leva a seguinte pergunta:

 

Mas afinal, qual é a relação entre o gerenciamento de projeto e a produção fonográfica e musical independente?

 

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Figura 3 – Projeto trabalhando a favor da arte – Fonte: Amazon

 

Simples, toda as etapas da produção musical (pré-produção, captação, edição, mixagem e masterização) e da produção fonográfica (orçamento, contrato com artistas, registro formal da música) fazem parte de um projeto artístico, podendo ser um single, EP, álbum, entre outros. Com isso, a visão da gestão de projetos que originalmente estava associada apenas a áreas como Administração e Engenharia de Produção torna se uma ferramenta muito útil para o produtor independente.

 

Concepção do Projeto: Pré-Produção 

 

O projeto artístico musical começa com a pré produção, etapa responsável pela concepção do projeto. Nela são estabelecidas referências musicais (gêneros), objetivos (trilha sonora, vinheta, música comercial), orçamento disponível, estruturação da música (salientar pontos fortes sejam eles a letra, o arranjo ou melodia e tentar retirar ou reduzir pontos fracos) e escolha de intérpretes. Nessa fase é imprescindível que o produtor esteja comprometido a conhecer os participantes do projeto afim de que consiga gerenciar de forma eficaz e integrada o time, ou seja, todos os componentes saberão os objetivos e como irão alcançá-los otimizando recursos como tempo e dinheiro. Um dos sinais mais frequentes de falta de pré-produção é o tempo excessivo em estúdio, quando isso ocorre, muitas tracks são gravadas sem necessidade pois existe a ideia de que algo possa ser utilizado na versão final (master) quando na verdade com essa quantidade exagerada de trilhas toma se muito tempo para as escutar e por fim selecionar as ideais, configurando-se como perda de recursos por falta de cuidado na pré-produção.

 

Aplicação Dos Conhecimentos Técnicos:  

 

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Figura 4 – Home Studio – Fonte: Pinterest

 

A segunda etapa de um projeto artístico se refere a utilização técnica de equipamentos e por isso depende do know how e expertise do produtor para que os resultados esperados pelo cliente sejam alcançados (tendo os mesmos sidos discutidos na pré-produção). Podemos dividir essa etapa em 4 partes: captação (utilização de microfones para gravação de voz e instrumentos), edição (adição de efeitos como reverbdelay , auto-tune, posicionamento das trilhas, além de eventuais cortes), mixagem (combinação das diferentes fontes sonoras gravadas na etapa de captação) e masterização (criação do produto final no qual todas as cópias serão derivadas).

Assim como em projetos de grande porte da engenharia, essas etapas só poderão ser efetuadas de forma a minimizar eventuais riscos e otimizar recursos caso a etapa anterior tenha sido elaborada de forma eficiente. Com isso, agregando valor ao trabalho realizado.

 

Formalização:

 

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Figura 5 – Assinando contratos – Fonte: Shutterstock

 

A próxima etapa na produção independente é conferida ao produtor fonográfico que na maioria dos casos também será o produtor musical, e se caracteriza pelo registro formal e geração do código internacional único de cada fonograma, o ISRC (do inglês, International Standard Recording Code), somente assim possibilitando a correta captação dos royalties e repasse aos envolvidos. Essa etapa é de muita importância pois prova que o fonograma é de posse do produtor fonográfico, assim funcionando como uma segurança contra possíveis plágios.

 

Trabalho pronto, acabou ?   

 

Não, toda música tem seu propósito que é … ser ouvida e agora entra uma fase que mudou muito nos últimos 20 anos e até mesmo as grandes gravadoras não sabem exatamente como prosseguir, a chamada divulgação.

Com o advento da internet, a divulgação não depende somente dos esquemas que as majors faziam com grandes meios de comunicação como tv, rádio e cinema que impediam o surgimento de artistas que não estavam dentro do mainstream. Começa uma nova era da divulgação onde múltiplas estratégias podem ser utilizadas, como por exemplo: serviços de streaming, criação de páginas em redes sociais (tanto do produtor quanto do autor e/ou intérprete da música), criação de vídeos, serviços de crowdfunding (podendo ser a maior parte do orçamento oriunda dessa forma) no qual o prêmio é relativo a quantidade investida pelo patrocinador, podendo ser a música em formato digital, físico ou até mais personalizado, no caso de produtos autografados. Outra forma de divulgação que ficou conhecida no início dos anos 90 foi a formação de relacionamentos entre as majors e as indies no qual as grandes empresas eram responsáveis apenas pelos contratos de distribuição e divulgação pois para empresas menores essa área apresentava um grande problema.

 

Sendo assim, o conjunto de produtores independentes surge como espaço de tentativa de quebra da hegemonia e massificação promovida por parte das grandes gravadoras. Outro papel realizado pela produção independente é o de ser em alguns casos o único meio que determinados artistas possuem de atingir o mercado fonográfico, exemplo do funk carioca, rap, rock alternativo, música religiosa (em especial o gospel), forró, entre outros, ajudando na formação de artistas que eventualmente poderão ser absorvidos pelas grandes gravadoras devido a repercussão notada por elas. Assim, denota-se uma inversão de papéis no qual pequenas cenas musicais passam não só a fazer parte de forma efetiva do mainstream mas também ditá-lo. Além disso, a definição de um projeto artístico se encaixa com a de projeto estabelecido no PMBOK no qual se refere a um evento único com início e fim bem definidos. Com isso, é possível notar que a visão globalizada proporcionada pelo gerenciamento de projetos torna possível a mitigação de custos, aproveitamento melhor do tempo, maior integração entre os envolvidos no projeto e visualização mais clara da expectativa do cliente e com isso melhores estratégias podem ser tomadas.

 

 

 

Referências Bibliográficas:

Academia do Produtor Musical. O QUE É PRÉ-PRODUÇÃO MUSICAL. Disponível em: <http://academiadoprodutormusical.com/blog/198-pre-producao-musical/&gt;. Acesso em: 01 Set 2017.

 

BARCAUI, A. Gerente Também é Gente – um romance sobre gerência de projetos. Rio de Janeiro: [s.n.], 2006.

 

DOROW, Emerson. Gerenciando Projetos com o PMBOK. Disponível em:  <http://www.governancadeti.com/2011/03/gerenciando-projetos-com-pmbok/&gt;. Acesso em: 25 Ago 2017.

 

VICENTE, Eduardo. A VEZ DOS INDEPENDENTES(?): UM OLHAR SOBRE A PRODUÇÃO MUSICAL INDEPENDENTE DO PAÍSDisponível em: <http://compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/viewFile/100/99&gt;. Acesso em: 30 Ago 2017.

 

VIVEIRO, Felipe; NAKANO, Davi. CADEIA DE PRODUÇÃO DA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA E AS GRAVADORAS INDEPENDENTES. Disponível em: <http://www.abepro.org.br/biblioteca/enegep2008_TN_WIC_075_533_11376.pdf&gt;. Acesso em: 30 Ago 2017.

 

Foto em destaque:

Disponível em:<http://http://www.kentwellsproductions.com/assets/pages/ssl%20duality.jpg>. Acesso em: 30 Ago 2017.

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