A construção e reforma dos estádios nas 12 cidades sedes da copa do mundo de 2014 foi uma escolha acertada?

A copa do mundo de 2014 foi um dos acontecimentos mais aguardados dos últimos anos no Brasil, não apenas pelo apelo esportivo de sediar pela segunda vez o maior evento de futebol do planeta, mas também por proporcionar a possibilidade de desenvolvimento em diversos setores da economia nacional, como na construção civil.

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Figura 1 – Emblema oficial da copa de 2014 / Fonte: http://www.fifa.com/worldcup/news/y=2010/m=7/news=official-emblem-1271597.html

Um evento como a copa do mundo pode ser considerado um projeto?

Projeto pode ser definido por ser um esforço único, visando atender as especificações e exigências definidas para cada circunstância, com prazo estabelecido e limitação de recursos.

A definição de projeto de acordo com o PMBOK é “Um projeto é um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo (único).”

Consoante com as definições acima a copa do mundo é um projeto, e a construção das arenas de futebol são parte importante deste projeto.

A realização deste grande evento futebolístico gerou a necessidade do país se estruturar para atender todas as exigências impostas pela Federação Internacional de Futebol Associação (FIFA).

Dentre todas a exigências impostas pela FIFA, existe uma que ficou bem conhecida do grande público e que se repetiu muito até a realização do evento, que foi construção de estádio de futebol no famoso padrão FIFA.

Antes da realização da copa do mundo de 2014 o brasil não possuía estádios que atendessem as especificações da FIFA, e isto gerou a necessidade de construção de novos estádios e a reforma de estádios existentes para adequá-los ao padrão imposto, como foi o caso do maracanã.

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Figura 2 – Estádio Mário Filho, Maracanã, após reforma para copa de 2014 / Fonte: http://www.maracanaonline.com.br/?page_id=11

A construção dos estádios no padrão FIFA foi um projeto bem-sucedido?

Para atender aos jogos da copa do mundo de 2014, entre construção e reformas, foram utilizados 12 estádios de futebol espalhados pelo Brasil, nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Brasília, Mato Grosso, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará e Amazônia.

Segundo publicação do site globoesporte.com “o Ministério do Esporte divulgou o balanço final dos valores dos 12 estádios da Copa do Mundo de 2014: R$ 8,333 bilhões foram investidos na construção ou reforma das arenas”, o que corresponde a quase um terço do valor total investido neste mega evento.

A construção dos estádios gerou grande movimento na economia, principalmente nas cidades sedes, com obras para construção e reforma das arenas, com obras de infraestrutura nas vias das cidade, com obras em aeroportos, criando muitos postos de trabalho e dando início ao aquecimento da economia em função copa.

Um dos pontos para considerar um projeto bem-sucedido é a satisfação do cliente, de quem vai receber este “produto” acabado ao final do prazo estabelecido, e antes mesmo de se aproximar das entregas das obras, os clientes (população brasileira) estavam divididos entre a satisfação de ver as mudanças e melhorias acontecendo no presente, como oportunidade de emprego em variados setores, e a insatisfação de ver a maneira como tudo isso era conduzido, como as suspeitas de superfaturamento nas obras e descompromisso com a transparência.

Outro ponto que caracteriza um projeto bem-sucedido é o atendimento e cumprimento dos prazos preestabelecidos na concepção do projeto, segundo informação publicada do portal IG,

“Em 13 de janeiro de 2010, 11 prefeitos e 12 governadores, além de Orlando Silva Júnior, ministro do Esporte na época, assinaram um documento público que definia compromissos a serem assumidos pelas sedes da Copa do Mundo de 2014, no Brasil. A chamada Matriz de Responsabilidades, em sua primeira versão, definiu, entre outras coisas, datas para que os estádios, novos ou reformados, estivessem prontos: entre agosto e dezembro de 2012. Das 12 arenas, apenas duas foram concluídas no prazo: Castelão (Fortaleza) e Mineirão (Belo Horizonte). ”.

Conforme publicado pela página da BBC Brasil em janeiro de 2014 ,

“O Brasil inicia o Ano Novo (2014) oficialmente atrasado na construção das seis arenas que ainda estão sendo erguidas para a Copa do Mundo, que começa daqui a menos de seis meses, em 12 de junho.

O prazo inicialmente estipulado pela Fifa para a conclusão dos estádios – a Arena Amazônia, em Manaus; a Arena das Dunas, em Natal; a Arena Pantanal, em Cuiabá; a Arena Corinthians, em São Paulo; a Arena da Baixada, em Curitiba; e o Beira-Rio, em Porto Alegre – terminou em 31 de dezembro.”

Foram contabilizados 20 atrasos nos cronogramas de entrega dos estádios da copa do mundo de 2014, gerando impactos no atendimento dos prazos do projeto e consequentemente nos custos. Os principais motivos dos atrasos nas obras, de acordo com levantamento realizado pela BBC, “foram por problemas de financiamento, questões trabalhistas (como a falta de mão de obra e greves) e acidentes, como o ocorrido na construção do palco de abertura do Mundial, em São Paulo.”

O não atendimento dos prazos neste projeto gerou impactos negativos, um dele foi a insatisfação da FIFA, “contratante”, com a entrega tardia das arenas, ocasionando a postergação dos eventos testes em função da entrega das obras ocorrer muito próxima a data de abertura dos jogos, aumentando os riscos  de não haver tempo hábil para possíveis ações corretivas antes de iniciar o evento. O não cumprimento do cronograma abalou as relações entre as partes e gerou desconfiança quanto a capacidade do Brasil de conseguir sediar um evento de grande porte como este.

Um dos aspectos mais importantes para que um projeto possa ser considerado bem-sucedido é a questão do valor investido e a capacidade de respeitar os custos estipulados em sua concepção.

Os orçamentos para os estádios da copa do mundo de 2014 foram elaborados em janeiro de 2010 e até a entrega de todas as 12 obras, em apenas uma, na arena castelão em Fortaleza, não ocorreu aumento nos custos, nas demais obras ocorreram aumentos variando de 0,05% a 88,2%.

Figura 3 – Aumento dos custos dos estádios para copa do mundo de 2014/ Fonte: http://estadionacionaldebrasilia.com/galeria-de-fotos/

Por muitas vezes o aumento nos custos do projeto pode simbolizar sua inviabilidade e expõe o mau planejamento realizado. Um orçamento com aumento de 88,2%, como no caso do estádio Mané Garrincha, localizado em Brasília, quase dobra o valor estimado inicialmente deste projeto, e o torna o estádio mais caro da copa.

Os constantes aumentos nos custos para a construção dos estádios causaram a revolta e indignação da população, em virtude de ter dinheiro público sendo utilizado nestas construções e pelos altos valores investidos.

Dentre todos os problemas apresentados, como insatisfação da sociedade com a condução de como as obras da copa estavam sendo realizadas, com os atrasos constantes e com os aumentos nos custos de construção dos estádios, em junho de 2014 todos os estádios tinham sido entregues, e estavam aprovados para a realização dos jogos da copa do mundo.

Todos os estádios foram utilizados, com aceitação da mídia e do público para a finalidade para qual eles foram concebidos, jogos de futebol.

Encerrada a copa, alguns dos modernos estádios que foram construídos em centros onde não há times de futebol disputando os principais campeonatos nacionais como Rio Grande do Norte, Amazônia, Mato Grosso e Brasília, onde somados foram investidos 3,0396 bilhões de reais, não há grande utilização com jogos de futebol e muitos amargam prejuízos devido ao alto custo de manutenção.

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Figura 4 – Estádio Mané Garrincha, localizado em Brasília/ Fonte: http://estadionacionaldebrasilia.com/galeria-de-fotos/

Projetos de viabilidade são realizados pelos responsáveis pela administração das arenas, como atrair jogos de grandes times para o estádio e a realização de grandes shows de música, entretanto, não sendo o suficiente para viabilizar o estádio.

O Estadão publicou um matéria em janeiro de 2017, onde informa que “Mané Garrincha, em Brasília, e as arenas Pantanal (em Cuiabá) e da Amazônia (em Manaus) não conseguem pagar suas contas de manutenção mensal”. Em alguns estádios os custos médios mensais com manutenção chegam a R$ 700 mil, mostrando o grande prejuízo deixado pós copa.

Apesar do evento copa do mundo ter sido considerado um sucesso, o projeto copa do mundo, que vai mais além do que um mês de competição de futebol entre as seleções dos países participantes, apresentou diversos problemas ao longo de sua trajetória e até os dias atuais, onde  prejuízos são percebidos em locais onde as arenas não precisavam existir. 

 

Referências Bibliográficas

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GLOBO ESPORTE. Globo Esporte – GE, 2014. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2014/06/panorama-final-estadios-inacabados-e-aumento-de-48-nos-custos-de-obras.html>. Acesso em: 01 set 2017.

EXAME. Estádios vazios e obras inacabadas: o legado da Copa, 2016. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/brasil/estadios-vazios-e-obras-inacabadas-o-legado-da-copa/>. Acesso em: 01 set 2017.

ESTADÃO. Elefantes brancos: estádios da Copa pedem socorro, 2017. Disponível em: <http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,elefantes-brancos-estadios-da-copa-pedem-socorro,70001644556>. Acesso em: 31 ago 2017

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